"Segunda Opinião" #160- Manhãs e tardes da TVI: Novidades para vencer?
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A decisão de terminar com o "Você na TV!", de 14 anos, vem da primeira apresentadora do formato. Agora diretora de conteúdos, Cristina Ferreira pôs fim ao espaço que já foi seu. Não foi vingança, nem capricho. Foi uma decisão essencial para a TVI, no segmento das mudanças que o canal queria implantar para chegar à liderança. Depois de anos a brilhar, o programa perdeu a sua essência e até ficou descredibilizado, num cenário "estranho" e "sem identidade". A culpa não foi dos apresentadores (na altura Maria Cerqueira Gomes e Goucha), mas da escolha de uma série de conteúdos e personalidades que pouco se encaixavam na história do talk show.
Apesar dos resultados promissores, após a saída de Cristina Ferreira da SIC e da estreia de "Casa Feliz", o "Você na TV!" estava apenas ali, a ocupar um horário. A decisão foi acertada e a escolha dos dois apresentadores também. A televisão em Portugal é um ciclo: mudam-se os horários, mas os protagonistas são (quase) sempre os mesmos. Por exemplo, Fátima Lopes, Júlia Pinheiro, Tânia Ribas de Oliveira, João Baião e Jorge Gabriel já fizeram manhãs e tardes. Joga-se pelo seguro, num mundo em que tanto se fala de inovação e revolução. A escolha de Cláudio Ramos e Maria Botelho Moniz é inédita e merecida. Com um percurso muito presente na televisão - como comentadores e substitutos de outros rostos - os apresentadores nunca tiveram muitas oportunidades na SIC e a TVI "agarrou" neles, que são o futuro da televisão.
Cláudio Ramos nunca desistiu do seu objetivo e sempre participou no daytime, como "segundo rosto". Já Maria Botelho Moniz tornou-se repórter de "Olh'ó Baião", mas acabava sempre por interpretar o papel de menos destaque noutros desafios, como o "Passadeira Vermelha". É, sem dúvida, merecido e "Dois às 10" já faz história por isso. A dupla funcionou bem na estreia e mostrou-se preparada. Cláudio é a parte mais emocional e divertida e Maria acaba por ser o "equilíbrio" e o lado racional, sem esquecer o enorme talento para conduzir histórias.
A manhã de hoje não foi muito agitada, nem teve o constante "entra e sai", como os últimos programas que Cristina Ferreira tem trazido para o ecrã. Mostrou-se um formato leve e descontraído, que acaba por seguir o antecessor "Você na TV!". Tivemos espaço para música, famosos e histórias mais 'pesadas' com anónimos. As reportagens devem fazer parte do alinhamento do programa. Para uma estreia, não foi um programa 'arrebatador', mas as três horas ficaram bem ocupadas. Da antiga Crónica Criminal, surge a Atualidade, que mantém os comentadores. "Dois às 10" não traz nada inédito em termos de conteúdos (para já), mas traz 'sangue novo', o que já vale por muito neste horário.
Quanto ao cenário, a TVI seguiu a linha esperada. Na SIC, temos um formato com um cenário enorme e o canal tentou contrariar a concorrência. É um estúdio diferente do que se tem visto, inovador na sua forma e também nas cores. O rosa não costuma estar no centro das cores utilizadas, talvez por ser associado a mulheres, mas "Dois às 10" traz essa cor, conjugada muito bem e quebra o tabu do famoso "rosa é para meninas, azul é para meninos". Existe uma cozinha e dois espaços para conversas, com sofás. Existe também um local para os artistas, muito bem decorado. O genérico é simples o grafismo é muito semelhante ao "Você na TV!", mas acaba por resultar bem. Na emissão, não parecia existir espaço para público - não se sabe se é por causa da pandemia - mas este faz muita falta e "Dois às 10" deveria repescar a essência do antecessor e dar espaço aos convidados da plateia.
Quanto ao nome, é talvez a parte menos positiva. Porquê? Porque explica demasiado do formato. Ou seja, pelo nome sabemos que é uma dupla e que o formato é emitido às 10:00 horas. Existe então pouca "margem de manobra" para eventuais mudanças, seja na dupla ou no horário, tal como em "5 Para a Meia-noite", por exemplo, que se chamava assim porque eram cinco apresentadores e agora não faz sentido.
As tardes têm também um novo rosto. Manuel Luís Goucha estreia-se num formato íntimo e feito à sua medida. Tal como as manhãs, as tardes precisavam de um novo ar. "Goucha" terá espaço para conversas, com o Manuel de sempre. É merecido, mas acaba por ser também uma 'continuação' do que foi já feito e também muito semelhante ao "Júlia". As tardes, por alguma razão, têm tendência a ter temas mais 'deprimentes' e sérios e ai Cristina Ferreira não acertou. Não é "Goucha" que está mal, mas o horário. Aqui, mudou-se apenas o protagonista, mas manteve-se a essência do que já vimos.
A primeira emissão teve muitos e bons convidados. Teve histórias incríveis e uma série de bons conteúdos, com um profissional à altura. As surpresas não devem faltar. As tardes precisavam de um homem - não desfazendo as mulheres que as fazem. Mas Goucha acaba por ser 'sangue novo' no horário, o que é bom. Contudo, o vespertino poderia ter estreado logo a seguir ao "Jornal da Uma" e ser seguido por um concurso ou até uma novela inédita. 'Desmanchar' a típica programação que existe há muitos anos e acabar de vez com a novela repetida a seguir às notícias, como a SIC fez.
Em termos de cenário, está igualmente bem conseguido e com um toque de glamour e atualidade. As cores são muito 'vivas' e alegres. Os espaços de conversa estão muito bem conseguidos e existe uma interligação de cores e formas com as manhãs. Foi um estúdio pensado de forma assertiva, contrariamente aos anteriores nos mesmos horários. Afasta-se de "Júlia", com um pequeno e simples cenário.
Para a TVI vencer, é preciso que os espectadores abram o coração para Cláudio Ramos e Maria Botelho Moniz entrarem. Mas também é essencial que o formato tenha novidades e coisas diferentes para mostrar. "Casa Feliz" e Diana Chaves e João Baião tornaram-se uma referências e a missão não será facilitada. Já nas tardes, "Goucha" poderá ter uma missão mais facilitada, tendo em conta que "A Tarde é Sua" vencia muitas vezes frente à SIC.
Por: Filipe Vilhena






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