quarta-feira, 22 de março de 2017

"Querido Diário" #9- Novelas com temporadas?


Estreada a 21 de dezembro de 2016, esta rubrica é um espaço singular, onde são abordados diversos temas como se se estivesse a escrever num diário intimo.

Querido Diário,

Esta semana venho falar de ficção e de como os canais privados se aproveitaram do seu sucesso para obter mais audiências.

No ano de 1977 estreava na estação pública "Gabriela", a primeira telenovela a ser emitida em Portugal. À hora de almoço, a população recolhia-se para suas casas ou cafés da proximidade para assistir ao novo capitulo, que causava emoção, suspense, alegria, tristeza, entre muitos sentimentos, que apaixonaram os portugueses e tornaram a ficção uma aposta incontornável na grelha dos nossos canais.

As novelas, desde essa altura, passaram a fazer parte da grelha da atual RTP1, mas a aposta era rigorosa e seletiva. Não se estreavam produtos apenas pelas audiências, mas pela sua qualidade, pela história e pelo trabalho realizado por toda a equipa.

Com o surgimento dos canais privados o passar dos anos , a ficção passou a ser uma receita de audiências, onde se estreiam novelas atrás de novelas, com histórias muitas vezes semelhantes e com atores que transitam de trama para trama sem intervalo de tempo. O processo passou a ser mais rápido e foi-lhe retirada a magia da antiga ficção.

Atualmente assistimos talvez ao pior ponto da ficção em Portugal. Apesar dos bons autores, atores e até sinopses que possuímos, os canais exercem atualmente um controlo enorme nas histórias, imponto uma narrativa com muito ritmo, confrontos, acidentes, cenas de sexo, mortes e afins. Tornou-se habito, por exemplo, na estreia todas as novelas se iniciarem noutro país, terem várias cenas de sexo e morrer algum personagem (onde o culpado só vai ser revelado nos episódios finais). Isto é a prova de que a ficção já não é livre, está pressa a pequenos truques para obter audiências e gerar comentários.

Surgiu também há pouco tempo em Portugal a "moda" das novelas com temporadas, sendo que a TVI foi a primeira a utilizar esse feito com "A Única Mulher", que no total das suas 3 temporadas teve nada mais, nada menos que 561 episódios.

A verdade é que a RTP1 já tinha utilizado um método semelhante com "Os Nossos Dias" (duas temporadas com 600 episódios no total). A diferença é que a trama do canal público foi logo anunciada como uma novela de longa duração e da primeira para a segunda temporada vimos a renovação do elenco, com novos protagonistas e uma história diferente. Em outros países este é um método muito utilizado.

A ideia das temporadas baseia-se no seguinte: Se a novela tem boas audiências, acrescenta-se mais uns 200 episódios, "mandam-se fora" algumas personagens (que o mais provável é morrerem) e acrescentam-se outras tantas, renova-se um ou dois cenários e depois é só esticar a história ao máximo. Assim foi com "A Impostora", "Nova Rainha das Flores""Amor Maior",  e será com "Ouro Verde".

Com isto, perde-se uma boa história- que fica descaracterizada- e a longo prazo espectadores. Mas os canais saem a ganhar e enchem os bolsos, pois o investimento maior é sempre feito no inicio da novela. Depois de já não existirem mais atores para entrar na história e as audiências começarem a cair, coloca-se-lhe um final e volta-se a criar outra novela. É assim, um circulo vicioso.

Será que alguma vez a ficção vai voltar a ganhar rumo? Despeço-me assim "Querido Diário". Boa semana a todos!

Por: Filipe Vilhena

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